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DANÇA DAS LETRAS

a palavra desmedida, sem amarras, capaz de inventar moinhos e mundos, enfrentar cavaleiros e solidões, correr sem jamais conhecer limites ou sombras... o pensamento é uma nuvem, está lá ainda sem forma, suspenso, quando de repente se aventura e cai feito chuva e palavra. escorrem dentro da gente e voltam ao pensamento...somos enfim um ciclo de palavras que não dura mais que uma vida.

ASAS DE PAPEL

No século passado quando alguma criança morria em terras chilenas, dona Rosa era chamada para preparar a sentinela. Velas acessas, ladainhas secas e resistentes ecoavam pelas ruas do povoado. Triste passava perfume em seus corpos, triste vestia a melhor roupa na criança e triste fazia suas asinhas de papel prateado. Os pais não podiam chorar porque as lágrimas molhariam as asas e isso os impediria de chegar ao céu.

LINHAS...

Ana já sente um século se aproximar para lhe beijar a face. Não sabe que horas nasce a lua ou se põe o sol. Estranha os nomes, os gostos, os rostos, as vozes... Nas mãos um lençol cheios de mistérios e fé confunde-se ao terço. Repete o que já foi dito e se cansa do que jamais foi pronunciado. Senta-se na cadeira...pega a agulha e começa longos crochês. Enroscam-se desenhos sem fins, linhas paralelas desdobram-se sobre as curvas, círculos menores tocam em quadrados, flores atravessam retângulos, pontos enamoram-se de outros, braços de rios voltam para as nascentes confusos sem saberem aonde desaguar. Guarda a agulha e todos os rolos de linha dentro da caixa. O sol está se pondo, por isso escurece em seu quarto. Chama alguém e pede para guardá-la. Estende as mãos trêmulas. Mas não existe caixa, nem linha, nem desenhos, nem flores, nem rios... Fingindo alguém pega e a leva para cima da cômoda. Ana agradece e boceja sem duvidar que a vida é um crochê. Quando estenderemos nossa caixa invisível para alguém guardar jamais saberemos...

MARIÃO...

naquele tempo poucas coisas já haviam sendo inventadas. as galinhas dormiam despreocupadas no meio da rua enroscadas umas nas outras e os cachorros de barriga pra cima achavam o céu mais interessante que a terra. a rua de piçarra ia em direção ao campo que com as primeiras chuvas deixava-se ser tomado pelos bichos e coisas.
nessa paisagem, impregnada de tudo isso lá estava Marião, uma senhora alta e de magreza visível. vinha do Pirinã, povoado suspenso entre matas e estrada, aprisionado no tempo sem pretensão alguma de se mover. em meio às poucas coisas que já haviam sido inventadas ela espantava-se com a televisão à sua frente. queria entender de onde vinham aquelas pessoas presas naquela caixa. como podiam falar? em que lugar estavam ?  comiam, banhavam, dormiam?
metia as mãos entres as pernas afundando saia e anágua. cuspia, coçava a cabeça e já cansada de tudo aquilo ia para a rede. com o cachimbo na mão acendia vagalumes e desenhos no ar. deixou-se levar por lembranças, tentou sentir o amor de quem partiu, contou as roupas estendidas no varal que estendia ainda menina, revirou o baú...mas dormiu antes de ver o que tinha, eram lembranças.
de madrugada o cachimbo caiu da sua mão e  despertou assustada pela descoberta. foi até o pote encheu a caneca dágua, tentou saber naquela escuridão aonde estava sem gato. voltou pra rede, pegou o cachimbó sem fumo e dormiu sorrindo dizendo pra si mesmo: tão tudo morto, por isso que não entendia!

CARTA PARA UMA ALUNA QUE ME FAZ ACREDITAR...



hoje quando apagar a luz do quarto
sei que a madrugada se acenderá em minha janela
serão vaga-lumes em rodopios 
pingando as cores que sempre sonhei
pelas frestas vazarão todas as minhas dores e cansaço
nenhuma palavra será dita
porque será desnecessária
fecharei os olhos 
para que me sinta irmão e filho da natureza e do universo
já em sonho
pegarei minha pasta sorrirei aos meus alunos
me curvarei em agradecimento por sentir a vida que emana de cada um
por fim de costa para o quadro negro escreverei no ar como se fosse possível:
"não acreditem nesta realidade, ela foi feita por homens que não aprenderam a sonhar"





EM QUE TEMPO...



quando acordaremos de verdade do sono que nos mantém acordados?
em que dia da semana gritaremos nossos erros?
em que hora beijaremos a terra, pedindo desculpas ao céu?
em que instante choraremos abraçados às árvores e animais?
nossos olhos aguentarão a verdade da luz?
nossa boca sentirá o gosto do que jamais foi comido?
nossos ouvidos escutarão a palavra recriada?
em que momento nos reencontraremos, todos os humanos para respondermos juntos:
por onde estivemos por tanto tempo?

ANTES DEPRESSIVO


eram 400 milhões...mais concorrido que qualquer vestibular do mundo
você ali...ainda sem nome, sem gosto e sem rosto, sem time
e contra todas as probabilidades você chega em primeiro, e por isso vai reinar absoluto ou quem sabe num lampejo de sorte outro tenha cruzado a linha junto e lhe faça companhia pelos próximos nove meses
quando sair agradeça sempre a casa aquecida, segura, com água e comida que recebeu
respire o ar que não vê, mas lhe mantém vivo, beije a pessoa amada, ligue para o amigo e lhe diga bobagens para rirem juntos, reconte as histórias dos povos, diferentes sim, mas jamais desiguais
só não ache tudo isso chato...pense nos 399 milhões que dariam tudo para estar em seu lugar
dance na chuva, sinta seu corpo como parte da natureza, construa barquinhos de papel, e rabisque nos muros e paredes: que viver , simplesmente viver é o que se deve fazer com a  vida, nesta vida